Como não preparei nada novo mas quero começas logo estou publicando o texto que meu deu a idéia para o Blog, que será melhor explicada na próxima vez, afinal planejamento não é comigo!
A todos(ou ninguém ou eu mesma) uma boa semana!
LUMIÈRE EN PRISON DANS LE VENTRE DE LA BALEINE( Luz aprisionada na barriga da baleia) Rebecca Horn. 2002
A obra exposta no CCBB, para a primeira exposição de Rebecca Horn no Brasil, que tem o formato de uma retrospectiva de sua carreira. Fica na terceira sala do segundo andar, a obra é composta por projetores localizados no teto, com um disco que reflete por toda a sala o poema que dá título a obra, no meio da sala há uma bacia negra com água que é agita por um braço mecânico dourado em intervalos de tempo, acionado por um motor.
Bem diferente de um texto historiográfico a proposta deste trabalho é a partir das discussões levantadas em sala de aula, possibilitar a reflexão e elaboração de um texto de arte que levante uma possibilidade de adentrar a obra, relate uma relação com a obra que possibilite outras aberturas para reflexão sobre a obra, artista ou artes. Sendo assim este texto é composto por minha percepção e reflexão dentro da barriga da baleia em uma visita no dia 26/06/2010 a essa exposição..
Depois de passar pela barreira plástica, ou passar no meio da cortina. O que encontrei era diferente é similar ao início da exposição. Ainda há braços mecânicos e motores funcionando a seu bel-prazer, mas nessa obra a artista conseguiu despertar outros sentidos, mas do que isso os anteriores agora juntos na mesma obra. Este trabalho é composto tanto por um apelo visual como sonoro em uma junção tão harmoniosa que se tornam um só.
Nessa obra entramos em outro universo, mais introspectivo. A barriga da baleia é paz, todo o caos da cortina para fora são insignificantes. A paz só é quebrada pala passagem dos visitantes falantes que me distraem, não tanto pela imposição dos seus atos e vozes na sala, mais pela nova forma que a obra toma ao refletir-se neles. O único problema da presença dos outros é o barulho que emitem, quebrando a sintonia da sala que me fez perceber outro som antes não claro na admiração da sala, o barulho do motor do braço também constante e casado a musica da sala, por isso quase indissociável.
A junção de luz, texto e som que é apenas perturbado pelos leves movimentos do braço dourado na bacia negra de água distrai e transforma a experiência da obra. O ver e sentir andam juntos quando se entra na barriga da baleia. A junção de texto, música e reprodução te transporta para um mundo diferente, interior e sensível. Depois do momento inicial que compreende parar no início da sala, ou caminhar calmamente em volta da bacia, momento que pode variar de alguns minutos ou muitos até parte de hora com estou fazendo agora sentada tentando escrever o impossível, mas que deve ser o exercício de todo estudante de arte. Na posição agradável que estou vou tentar uma “dissecação” dessa obra, por todas as janelas que encontrei no meu encontro com ela.
Um dos fatos curiosos que observei de primeira é a possibilidade de dissociar os meios utilizados na obra, como ao fechar os olhos por um tempo. A música com seus intervalos é discretamente interrompida/perturbada pelo barulho do motor no braço dourado, que para mim se parece a um pescador em sua jangada. O que me levou a outra reflexão, a presença desse braço, que assume diferentes formas e materiais nos trabalhos de Horn expostos no CCBB, que guardam grandes semelhanças entre si. São tão mecânicos mais tão reais. Este, o braço dourado, se parece a uma redução as formas elementares de um barqueiro, que com respeito e delicadeza atravessa um rio a fim de alcançar o seu destino.
O barqueiro dourado de Horn passa por um lago de palavras afastando-as ou sacudindo-as, mas a sua presença não é capaz de desarrumá-las. O barqueiro tem o papel importante e diferente, seu objetivo não é passar mais perturbar a tranquilidade dos versos para manter a harmonia da obra. A sua função é primordial mais pouco observada, a não ser quando ele começa a funcionar e todas as pessoas lhe prestam atenção. Ele é a constante “máquina” pertencente ao imaginário da artista, e que permeia todas as obras de sua exposição.
È particularmente interessante que luz aprisionada na barriga da baleia apareça para os visitantes em forma de palavras, a luz é o poema. E toda a sala faz parte dele a água na bacia, o seu reflexo na água, nas paredes e nas pessoas e ainda mais o movimento perturbador mais não dissociador do braço/da água. Todos formam um só, um todo equilibrado e contínuo, mas movimentado e inquieto. Controlado mais surpreendente tão separado e tranquilo mais também em movimento. Um mundo mecânico/controlado mas não igual. È mecânico mas parece orgânico e vivo.
O braço movimenta não apenas água, mas também reflexo e reprodução de palavras. Rema em um lago de palavras sem ser capaz de separá-las, as agita é mostra que estão vivas e preenchendo a sala, não estáticas e coladas à parede. Estão vivas e de tão vivas se movimentam e são “ouvidas” pela música e sentidas ao serem reproduzir nas paredes e pele das pessoas. Elas escapam da linha, habitam todo o espaço da sala, em diferentes planos, cores, alturas e formas mais abaladas pelo movimento do barqueiro dourado.
Toda vez que ele se mexe parece tanto que estou dentro da fantástico mundo de Edward[1] , onde tudo é mecânico no entanto tão vivo. Mesmo todo aquele metal, bateria e movimentos sincronizados, ficam tão humanos e similares a essa nosso mundo pós-moderno, onde a máquina pode ser tão orgânica quanto um ser humano, ou tão inorgânico quanto ele pode ser.
Depois de olhar por muito tempo para o barqueiro dourado não posso deixar de sentir uma melancolia (despertada também em outras obras da exposição) e tristeza de vê-lo sempre a reproduzir o mesmo movimento que para ele não faz nenhum sentido e não muda sua vida, estará sempre condenado a remar, balançar, desequilibrar as palavras, sem conseguir mudá-las, sem uma idéia de futuro diferente ou um progresso. Mas a idéia de um futuro com progresso e na verdade um concepção tão moderna e ocidental, e não parece que no final ficamos todos no mesmo lugar repetindo as mesmas coisas e sem conseguir mudá-las, essa melancolia é mesmo do barqueiro ou do nosso reflexo nele.
A sua impossibilidade de transpor as palavras, se parece muito com a árdua tarefa de com palavras explicar o visível, sonoro ou sensível. Nem a possibilidade de flexão das palavras, com seus sentidos para a adequação delas as nossas idéias, não são suficientes para expressar e ser entendido quando falamos de sensações. Não somos também barqueiros dourados remando contra um mar de palavras muito mais poderoso que nos. Onde o Máximo que conseguimos é flexioná-las, movimentá-las e/ou trocá-las de lugar. No entanto teremos sempre que empurrá-las, separá-las e nos contentarmos com a volta delas ao seu lugar de origem, sua significação inicial e sua constante superioridade sobre nós.
[1] NOVI, DENISE DI; BURTON TIM. Edward Scissorhands. [Filme-vídeo]. Produção de Tim Burton e Denise Di Novi, direção de Tim Burton. EUA, 20th Century Fox, 1990. 1 DVD, 105 min,. Color. Som.